Uma palavra sobre a palavra Vida(Marcia Tiburi)

Por uma teoria do estado de exceção na linguagem

 

No atual estágio histórico em que pensamento e moral compõem dois lados de uma única banda torna-se impossível ler,dizer ou ouvir a palavra vida sem cuidado filosófico – pelo menos para quem deseja ser justo com o conhecimento preservando,pela busca,a possibilidade de sua realização.Não é possível alegar ingenuidade sobre a questão quando o termo vida foi capturado por toda sorte de ideologias,o que exige que sobre ele se opere uma desmontagem crítica.

A disputa sobre o termo vida corresponde na ordem do discurso ao que para além do discurso se dá com a própria vida que,sob a palavra,é ocultada.Não querendo reeditar apressadamente nenhum nominalismo como crítica do discurso,é necessário hoje prestar atenção se já não estamos vivendo uma nova era nominalista em que a posse do nome define a posse sobre a possível verdade das coisas.Quem sabe o que é a vida como uma verdade para além de todas as possíveis definições?Esta verdade talvez não exista,mas aquele que a controlar saberá do seu império no tempo.

Por isso,muitas disputas conceituais hoje,na verdade são disputas políticas.Saber é poder mais uma vez.Hoje,porém,poder,mais que nunca,é dizer.Quem não souber das disputas ideológicas corre o risco de parar de pensar por conta própria ao simplesmente aderir a falas prontas facilmente encontráveis no mercado das crenças.

 

A vida,portanto,precisa hoje,ser analisada como uma questão de discurso.A captura da palavra vida – sabem os que manipulam o discurso ou dele se valem num contexto comunicativo – define a intenção da captura da própria vida.Da vida enquanto é capturada pela palavra como ordem simbólica que impera sobre o real.A relação entre as palavras e as coisas ainda está na ordem do dia.Em outras palavras,quem puder definir a vida,saber-se-á seu dono e senhor,lugar da verdade sobre a qual sempre se disputa no discurso.

O poder do discurso,entendido como fala pré-estabelecida em nome da verdade,advém de seu ocultamento como tal.Em outras palavras,fala-se da vida como se estivesse a falar da própria casa,e não de uma palavra que,ela mesma,é já conceito e,como tal,sempre elaborado,re-elaborável e passível de discussão.A palavra,por mais que se agregue à coisa,que se diga em nome de algo,não é a própria coisa à qual alude ainda que as próprias coisas precisem dela para chegar à cultura.Por isso,nos dias atuais,enganamo-nos ao discutir a vida – este amplo e inespecífico conceito que vai da natureza à cultura,da mera vida às suas formas e que como ideia é aquilo dentro do que estamos.

Disputamos quem vence no contexto da crença para saber quem deterá o poder dos que podem crer(seja no que for que creiam,na ciência ou na religião).A pergunta a ser feita neste momento histórico é – para além do sexo dos anjos,da alma das mulheres ou da “vida” dos embriões – se poderíamos discutir o conceito de vida sabendo que se trata apenas de um conceito e,assim,ultrapassar a retórica e o desejo de persuadir e libertar a verdade à qual apenas uma disputa honesta de conceitos poderia nos levar.A questão seria em precisar em que sentido a palavra é usada a cada vez que,como uma bandeira,é erguida em nome de guerra ou de paz. 

 

Por isso,é preciso falar com cuidado e pressupor o próprio ato de fala como algo que merece análise.Portanto,usar a palavra vida supondo a ingenuidade de quem não imagina o seu lugar entre outros tantos conceitos é má-fé.Não é filosoficamente,ou seja,em sentido analítico e crítico,ou dialético e crítico,sem definir com máxima exatidão o uso do termo que,historicamente,se constrói com conceito dos mais complexos e sobre o qual as disputas mais acirradas se travam.Supor esta ingenuidade ou falar a partir dela é sempre a primeira estratégia de quem,cinicamente,não quer se enfrentar com argumentos,de quem quer afirmar suas ideias pondo-se como inimputável numa disputa.

 

Quando digo a outrem que sei o que é a vida enquanto ele não sabe,se afirmo que detenho a verdade sobre um conceito enquanto ele não,estou falsificando o meu próprio lugar como sujeito de discurso,que se afirma a partir de pressupostos culturais e formais que organizam o discurso.Se afirmo que sei imediatamente o que é a verdade,já me coloco como seu possuidor e exijo uma postura de atenção.A mesma atenção que me esquivo de ter com a postura de outrem.A melhor arma numa disputa em que algum nível retórico está em jogo nem sempre é a autoridade,mas a ignorância.Esperto é quem sabe usar a postura do burro como plano de argumento.

 

A palavra “vida” encontra-se neste lugar especial na atualidade,lugar que,a qualquer momento,é ocupado por qualquer palavra com a qual se deseje entabular a verdade.A questão hoje apenas pode ser refletida por uma teoria do “Estado de exceção da linguagem” por meio da qual se investigue o modo como se pretende,na ordem do discurso,se capturar a verdade e decidir sobre ela por meio da captura de uma palavra.O poder do discurso situa-se na palavra tomada como arma de decisão.Ao sacralizar a palavra “vida”,afirmando que falar dela ou contra ela é uma blasfêmia ou heresia,espera-se sacralizar a própria vida à qual a palavra se refere como se,por meio da palavra,já se estivesse decidido sobre a coisa.

 

Apenas uma teoria organizada sobre a tese de que a linguagem,como parte de toda estrutura política,está sitiada por uma ordem que oculta seu próprio funcionamento,que a linguagem,como o corpo está “capturada fora”,incluída e excluída como no mesmo mecanismo do estado de exceção,é que se compreenderá o que se diz e o que se quer com isso ao pronunciar a palavra vida.

 

Ela está na ordem que faz do discurso a verdade.Duas posturas são visíveis nos dias de hoje.A daqueles que ainda enfrentam o potencial conceitual da palavra,o que se pode dizer por meio dela,ou o que ela pode significar em relação ao real.Tratam da palavra vida como uma palavra junto de outras.Compreendem-na como inserida na ordem do discurso à qual é preciso sempre prestar atenção.Por outro lado,há aqueles que falam dela como uma exceção.

 

 

 

Por: Marcia Tiburi.

Originalmente publicado na Revista Cult.

 

 


 

 

Texto extraído do site:

 

http://www.marciatiburi.com.br/textos/umapalavra.htm

 

 


 

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