O Desejo do Tempo(Marcia Tiburi)

Os antigos gregos tinham um Chronos,deus do tempo,a imagem do pai todo poderoso devorador dos filhos.Ele criava,ele mesmo aniquilava.O tempo cronológico é apenas o tempo que passa.Mas a experiência do tempo não passa tão simplesmente,somos nós que passamos por ela.Nos constituímos,em nossa interioridade,a partir dela.Como dizia Santo Agostinho,o tempo é algo complexo demais,sendo muito difícil para cada um explicá-lo.tanto quanto é fácil de entender,pois estamos nele desde sempre.O tempo nos possui e não o contrário.

 

 

Um dia de cada vez

 

 

É melhor viver um dia de cada vez?É provável que ouçamos ou pronunciemos esta frase em vários momentos da vida.Quando incertezas e desesperanças se põem em cena é a reflexão sobre o tempo(seja ele dito na forma dos dias,das horas,do tempo ao tempo)que sustenta nossas ponderações.Ou na básica ansiedade que move o cotidiano,quando não compreendemos as próprias direções,quando,sem perspectiva ou foco,parece que não buscamos nada.Ansiosos quando queremos muito,nem sempre sabemos bem o que queremos.E nos angustiamos porque estamos no tempo,medido,e não na eternidade,desmedida.A vida exige solução,mas o tempo é o limite de toda vontade.Por isso,ele também é possibilidade.

 

 

A frase traz uma sabedoria básica na forma de um conselho sobre o uso e a compreensão do tempo,do qual depende o desejo,nome que se dá ao modo de nos relacionarmos ao futuro,o nosso e o que compomos junto de outros.A frase nos diz sobre um modo de tratar com a frustração comum na sociedade de hoje:a da ausência do desejo que diz respeito a uma incapacidade de criar projeto de vida.Ou seja,o que fazer da vida dentro de seu limite.”Um dia de cada vez” significa:”vá com calma,aproveite o tempo presente”,mas por outro lado,também diz “esqueça a totalidade da vida”.Aí conhecemos o conflito com a “temporalidade” sobre o qual vivemos cegos.

Se pensarmos em termos de vantagens,talvez não seja frutífero ter em mente a vida inteira,o todo do que podemos fazer com o tempo que dispomos,pois não há certeza sobre o que virá.Porém,sem pensar no todo da vida,que é o tempo que temos para viver,talvez fique difícil orientar-se dentro dela.Sem sabermos do nosso tempo,estamos perdidos de nós mesmos,sem futuro.A dimensão do tempo é mais que psicológica e metafísica,ela é também prática.Põe-nos diante de nossa liberdade de decisão,define o destino,ou o tempo,que devemos construir.

 

 

A experiência do tempo pode ser uma experiência de angústia,de que algo desconhecido nos espreita.Só o desejo é a cura desta sensação de opacidade da vida.O desejo não é tormento,mas o caminho para sair dele.Ela não vem do nada.Nasce do tempo experimentado em seu limite,do fato de que há a consciência perturbadora da existência que é a morte.Enquanto esperamos seguimos a “viver um dia de cada vez”.No tempo que é sempre medida,a soma dos dias,compõe os sentido da vida,o valor da eternidade.

 

 

Os limites da experiência

 

 

Assim como damos “limites” às crianças para que possamos orientar seus desejos,seus queres e poderes,nós,mesmo adultos,deveríamos nos reorientar no nosso limite com a vida,a que chamamos tempo.O tempo,todavia,não é a mera duração da vida.A duração é só o tempo do relógio,ela se parece mais com o espaço que percorrem os ponteiros do marcador.Nosso modo de compreender o tempo é o que nos orienta na vida:o tempo do trabalho,o tempo do lazer,o tempo do conhecimento,do amor,o tempo interior,o tempo domesticado pela vida orientada e administrada que vivemos.O tempo é um radar que nos ensina aonde ir,nossas urgências,os caminhos que precisamos escolher diante da impossibilidade de seguir todos.

 

 

A frase sobre o dia a dia a ser vivido de um em um,nos serve de antídoto quando vivemos esta frustração tão específica que é a do tempo que não aprendemos a experimentar em seus dois pólos,o do todo fora de nós(a família,a sociedade,a história,o planeta)e o do que se elabora em nossa interioridade.De um lado,vivemos nosso tempo pessoal,o tempo de cada individualidade,de cada um que experimenta seu corpo,seu sentimento,medos,anseios,possibilidades,e sua noção de morte.O tempo individual é sempre o tempo da insegurança.Buscamos os outros:filhos,maridos,amigos,trabalho,para participarmos do tempo coletivo onde,ao partilharmos a insegurança com as demais individualidades,a eliminamos.Para tudo isso é preciso sempre muita atenção sobre o que estamos vivendo.

 

 

A avareza do tempo

 

 

Por outro lado,todos aqueles que sabem o valor do tempo,costumam pensá-lo em analogia com o dinheiro:tempo é dinheiro.Quem dispensa tempo,dispensa dinheiro ou,em termos mais técnicos,dispensa lucro.Mas o que é o lucro senão a vantagem que temos em relação aos outros,ao trabalho,à vida?O lucro é um “a mais”,mas a vida não vai nos dar mais tempo.Logo,tempo não é necessariamente dinheiro,mas justamente o que nos logra se a vida não foi bem vivida.Se o avaro economiza dinheiro,quem economizar tempo não poderá ser avarento,a rigor,o tempo é algo que sempre se multiplica.O tempo se multiplica na generosidade.É uma questão de organização.O desejo só surge como mensagem na garrafa àquele que entendeu a função de seu tempo próprio no tempo coletivo.

 

 

 

Por: Marcia Tiburi.

Publicado na revista Vida Simples

 

 


 

 

 

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Texto extraído do site:

 

http://www.marciatiburi.com.br/textos/quadro_odesejodotempo.htmhttp://www.marciatiburi.com.br/textos/quadro_odesejodotempo.htm

 


 

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