Defender a Filosofia,contra cegueira neoliberal

De novo,querem nos calar!De fato,não se trata de nenhuma novidade.Contra o silêncio da dúvida que precede toda contestação,querem impor o emudecimento forçado.Com efeito,a história da Filosofia está marcada por tentativas de fazer calar a potência do pensamento.Não foi assim contra Giordano Bruno,morto pela inquisição vaticana por ter nos mostrado as possibilidades abertas pelo alcance da infinitude?Não foi assim também com Walter Benjamim,perseguido até a morte pelos nazifascistas?Nessas,e em tantas outras tentativas,mesmo naquelas ocasiões em que os filósofos não são mortos,trata-se de realizar ações violentas contra uma forma de saber que sempre se coloca contra toda imposição.

 

 

De fato,o outro nome da Filosofia é Liberdade.São justamente os que querem a servidão dos anônimos,a subordinação do pensamento,em vez da sua autonomia doadora de pluralidade,que,mais uma vez,agindo violentamente,querem calar a voz rouca de um saber secular.Desta vez,trata-se de uma violência em forma de lei,por conseguinte uma violência constitucional.No final do ano passado,a Câmara dos Deputados votou pela não obrigatoriedade da Filosofia e da Sociologia na grade curricular do ensino médio.Para “Disfarçarem” a violência de uma lei sem legitimidade,pois foi feita sem a devida discussão e sem a anuência da comunidade escolar,disseram que tratar-se-ia de dissolver os conteúdos filosóficos em outras disciplinas da grade curricular.

Agora,ainda nesse primeiro semestre de 2017,o projeto deve ser discutido e votado no Senado Federal.Esta dissolução tenta enfraquecer a Filosofia e a Sociologia à medida que tenta fazer crer que seus conteúdos possam ser simplesmente dissolvidos em outros saberes.

 

 

Na verdade,não se trata de ensejar o diálogo interdisciplinar,mas sim de reduzir ao mínimo possível o espaço propício ao pensamento crítico.Os conteúdos filosóficos e sociológicos possuem especificidades que lhes são próprias,demandando,por isso,tempo e espaço particulares.São conteúdos sólidos,que ao mesmo tempo em que ensejam um saber específico,podem colocar em diálogo disciplinas aparentemente díspares como a matemática e a literatura.Portanto,a via não é a dissolução dos conteúdos filosóficos e sociológicos,mas,pelo contrário,o fortalecimento deles,garantindo-lhes maior espaço e consideração na vida escolar.

 

 

Esta ação contra a Filosofia e a Sociologia está no bojo da famigerada reforma do ensino médio,que nada mais é que o retrocesso do sistema público de ensino.Se aprovada esta reforma-desmanche,teremos dado dez passos para trás.Caindo em um tipo de ensino médio tecnicista capenga,reforçador das desigualdades sociais à medida que retira das classes populares o direito ao saber em sua completude.Para a imensa maioria,o mínimo;para alguns poucos,o tudo.Ademais,este gesto autoritário contra a Filosofia e a Sociologia dá margem a uma estupenda queda da qualidade do ensino,pois junta-se a isto,a possibilidade de pessoas de “notório saber”,portanto sem a qualificação específica para o ensino,possam ministrar aulas.Desse modo,a reforma-desmanche do ensino médio tenta “flexibilizar” o saber para torná-lo um simples acúmulo de opções mínimas,dando aos alunos uma visão de mundo fragmentada e dispersa.Esta fragmentação e dispersão impede uma interpretação crítica da realidade,uma vez que faz parecer distante aquilo que está próximo.Retorna,em alguma medida,o lema do dividir para dominar melhor.

 

 

É esta visão dispersa de uma realidade apresentada como justaposição de fragmentos autônomos que possibilita,por exemplo,a ilusão de que a justificativa econômica está acima do argumento político;ou a fantasia desastrosa de que homens “não políticos” possam fazer política;ou ainda a crença supersticiosa de que todos nós somos empreendedores de nós mesmos;e,que,portanto,ao trabalharmos não somos trabalhadores,mas “prestadores de serviços”.Neste último caso,a reforma-desmanche do ensino médio está de mãos dadas com a ideologia neoliberal.É próprio da ideologia neoliberal fragmentar e dispersar para reduzir e limitar nossa visão de mundo.Não por mera coincidência,seu produto mais acabado no campo do saber é o aparecimento da figura do especialista.Aquele que sabe cada vez mais sobre cada vez menos.Conforme avança a sanha neoliberal,mais pobre se torna a compreensão do que seja o processo educativo:reduzindo a dignidade do saber ao autoritarismo do mercado.Quem sabe em virtude da utilidade do mercado nunca sabe por si mesmo,portanto é um sujeito-objeto.

 

 

Um sujeito incapaz de dar um sentido único à dispersão que o aprisiona,um sujeito dócil,útil à servidão voluntária.

 

 

Dessa forma,tentam formar uma geração muda e resignada,mas que já deu mostras de que não se deixa calar facilmente.Trata-se de um projeto de médio prazo:incapacitar o pensamento crítico no presente para fechar a possibilidade de qualquer futuro melhor e diferente do que temos hoje.

 

 

Ao neoliberalismo não interessa o saber na verdadeira acepção do termo,mas a ignorância disfarçada de conhecimento.Na medida em que não são ofertados os meios necessários para se constituir uma visão integral da realidade em suas diversas instâncias,conforme quer fazer a reforma-desmanche do ensino médio,mais de uma geração sofrerá um genocídio educacional.Não será apenas um genocídio simbólico,mas também material,uma vez que o tipo de saber construído afetará materialmente e politicamente as próximas gerações das classes trabalhadoras.Um genocídio típico dos regimes ditatoriais ,mas,desta vez,feito sob a tutela “democrática”.

 

 

Ora,a última vez que a Filosofia foi retirada da grade curricular foi justamente nos anos da ditadura militar.Os artífices do poder autoritário e dos regimes de exceção sabem que o exercício do pensamento quando feito livremente,e na sua plenitude,é por natureza indômito.Estavam cientes naquela época,como agora,que o pensamento é ousado e que nunca se dobra aos cerceamentos.

 

 

Ante a violência do poder que impõe,a Filosofia afasta toda forma de resignação.Nunca está resignado quem se põe a pensar sobre as causas de obviedades aparentes que sustentam a servidão voluntária.Questionar,por mais simples que seja o questionamento,já é não resignar-se.Por isso,a relação entre a Filosofia e a Democracia é algo inconteste.Quando os regimes democráticos estão ameaçados ou em crise,como no nosso caso,sempre se atenta contra a Filosofia,pois se reconhece nela uma forma de saber que mesmo sendo considerada inútil,se presta ao mais digno dos trabalhos:o reconhecimento da liberdade como único meio pelo qual se dá uma existência verdadeiramente humana.A Filosofia é,por excelência,o saber que interpela o poder.Por isso,não são poucos os que querem o seu silêncio.

 

 

Resistiremos,pois a Filosofia nunca se resigna.Ela resistiu desde quando aquele grego inoportuno fazia,no espaço público,simples perguntas aos concidadãos.Ele mostrou que a verdadeira vida democrática é aquela que não teme a dúvida,nem exaspera ante o reconhecimento dos opostos,fazendo da contestação um índice de vitalidade da vida democrática.Por isso,agora,que mais uma vez se tenta agir com violência contra a Filosofia,é a hora de fazer como fez o velho grego:ocupar os espaços públicos possíveis,fazer indagações simples e aparentemente inoportunas,pois este tipo de indagação é a quela que se presta ao desmoronamento das falsas certezas.Assim,talvez a primeira destas indagações seja:quem quer nos calar?

 

 

Por: Fran Alavina ,11/02/2017.

 

 


 

 

Texto extraído do site:

 

 

http://outraspalavras.net/brasil/defender-a-filosofia-contra-cegueira-neoliberal/

 

 


 

 

 

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Projeto do governo para Ensino Médio chega ao Senado.Resistiremos:porque só uma visão não-fragmentada do mundo permite transformá-lo.

 

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