As Irmãs Fox

Quando O Livro dos Espíritos começou a circular em Paris,as irmãs Kate,Maggie e Leah Fox já lidavam com diferentes dramas pessoais,acompanhados de perto por repórteres ávidos por investigar seus contatos barulhentos com além e as possíveis fraudes por trás destes prodígios.Uma ovelha polêmica.

 

Nove anos já se tinham passado desde os primeiros fenômenos sobrenaturais registrados,em março de 1848.na fazenda onde as irmãs mais jovens,Kate e Maggie,moravam com os pais,John e Margaret Fox.

 

 

Kate tinha 11 anos e Maggie,14,quando pancadas inexplicáveis passaram a sacudir a casa da família em Hydesville,vilarejo a oeste do estado de Nova York.Os sons vinham de todos os cantos,como se irrompessem de dentro das paredes.

 

 

Por volta das oito horas da noite de 31 de março,o ferreiro John Fox,pai das meninas,bateu à porta da casa dos vizinhos,Mary e Charles Redfield,para pedir socorro.Charles se recusou a sair em meio à nevasca,mas Mary não resistiu à curiosidade.”Se for mesmo um fantasma,terei uma conversa animada com ele” – foi o que disse ao seguir John.

 

 

Uma única vela iluminava o quarto ocupado pelos pais e pelas irmãs Fox.Kate e Maggie estavam abraçadas uma à outra,embaladas na cama,enquanto a mãe,Margaret,dava ordens ao invisível:

 

 

– Conte até cinco.

 

 

E cinco batidas se seguiam

 

 

– Conte até dez…

 

 

Margaret pediu então para que o fazedor de barulhos invisível revelasse a idade de Mary Redfield,a vizinha.E todos contaram juntos as 33 pancadas.

 

 

– Se você for um espírito sofredor,manifeste-se com três batidas.

 

 

Toc,toc,toc.

 

 

As pancadas continuaram pela noite adentro e o movimento atraiu atenção de outros vizinhos.Às nove da noite,doze curiosos já se acotovelaram na casa.Um deles,William Duesler,ex-inquilino do imóvel,passou a conduzir a conversa com o visitante misterioso.

 

 

A comunicação foi feita no ritmo do tatibitate alfabético – uma pancada,letra A,duas ,letra B – e as frases telegráficas revelaram a seguinte história…O morto barulhento teria sido degolado cinco anos antes por um ex-morador da região,interessado na pequena fortuna acumulada por ele: 500 dólares,o equivalente a mais de um ano de trabalho de um trabalhador local.Seu corpo estaria enterrado no porão,a três metros de profundidade.

 

 

A notícia logo se espalhou e a casa virou uma espécie de centro de peregrinação,cercada de curiosos e repórteres.Visitantes chegavam de cidades próximas em busca de mensagens do além,católicos e protestantes esconjuravam os fenômenos como blasfêmia e céticos acusavam os Fox de fraude.

 

 

 

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Liderados por David,filho do casal Fox que morava em uma fazenda vizinha,moradores da cidade iniciaram uma escavação no porão da casa assombrada em busca dos restos mortais da assombração.O resultado da expedição seria anunciado na primeira página do jornal local Western Argus:

 

 

Pás e picaretas foram logo requisitadas e,após 3 metros de escavação,uma fonte de água pura jorrou e encheu o buraco do “fantasma”.

 

 

Para escapar do assédio dos curiosos e da imprensa,John e Margaret se refugiaram com as filhas,às pressas,na fazenda de David.Mas um outro acompanhante pegou carona com o grupo:o espírito barulhento.As batidas não pararam no novo refúgio – pancadas,rangidos,estalos cada vez mais fortes.

 

 

Margaret descartava a hipótese,levantada por muitos,de que suas próprias filhas produzissem os ruídos de brincadeira,para assustar e chamar atenção.A pressão dos curiosos e dos céticos aumentava a cada dia.Para dar apoio aos pais,a outra filha do casal,Leah,então com 34 anos,saiu da cidade vizinha de Rochester e foi ao encontro das irmãs.

 

 

Seu plano era simples:separar Kate e Maggie uma da outra.Quem sabe assim os barulhos não cessavam?

 

 

Leah voltou a Rochester com Kate,mas a situação só piorou.Os barulhos aumentaram na fazenda onde Maggie ficara e na casa de Leah.Na manhã seguinte à primeira noite com Kate,Leah relatou a seguinte cena:

 

 

“As mesas e tudo o mais no cômodo abaixo estavam se mexendo.As portas se abriam e fechavam,fazendo enormes estrondos.Então,eles subiram as escadas e entraram no aposento ao lado do nosso.Parecia haver muitos atores envolvidos nessa encenação e uma grande plateia presente.Ouvimos um espírito dançar como se estivesse usando tamancos,o que durou uns dez minutos”.

 

 

As palavras usadas por Leah Fox em seu relato seriam quase premonitórias:”encenação”,”grande plateia presente”,”muitos atores envolvidos”.

 

 

Semanas depois,Maggie se juntaria a Leah em Rochester e as duas se tornariam atrações públicas de um espetáculo pago.

 

 

Em 13 de novembro de 1849,uma terça-feira,o jornal Daily Adviser estampou o anúncio da primeira apresentação das irmãs Fox no maior teatro da cidade,o Corinthian Hall,com capacidade para 1.200 espectadores:

 

 

As portas se abrirão às sete horas.A palestra terá início às sete e meia.Entrada:25 centavos;50 centavos garantem um cavalheiro e duas acompanhantes.

 

 

Kate,então com 12 anos,foi poupada de tanta exposição,e Leah – que,estranhamente,nunca manifestara qualquer poder sobrenatural – se uniu a Maggie no palco.

 

 

Os barulhos tomaram conta do teatro assim que as duas entraram em cena.Logo após a apresentação,começou o calvário das “médiuns”.Um comitê de cinco homens,formado ali mesmo no teatro,foi incumbido de investigar a fundo a natureza dos fenômenos.

 

 

O primeiro teste foi realizado no dia seguinte,em sessão privada.O relatório sobre os resultados alcançados pelo comitê irritou os céticos ao ser lido em nova sessão no Corinthian Hall:

 

 

Uma pessoa do comitê colocou uma das mãos sobre os pés das senhoras e a outra sobre o chão,e,embora os pés não tivessem se mexido,houve um nítido ruído no chão.

No chão e no assoalho,o mesmo som foi ouvido – uma espécie de batida dupla bem nítida,como se fosse uma pancada com um ricochete.

 

 

Uma nova comissão,”mais rigorosa”,foi formada e novos métodos de investigação foram adotados para evitar fraudes.

 

 

Deitadas sobre a mesa,Maggie e Leah tiveram os pés imobilizados.Os cavalheiros amarraram cordas ao redor dos vestidos das irmãs e ataram seus tornozelos – atos quase libidinosos naqueles tempos.Às batidas não foram ouvidas durante estes testes,mas pancadas irromperam em outros momentos do exame.

 

 

Um médico recorreu ao estetoscópio para examinar o movimento dos pulmões das jovens e eliminar a possibilidade de ventriloquismo.Outra suspeita dos caçadores de fraudes também foi afastada após inspeção minuciosa do ambiente:a de que as irmãs usassem algum maquinário para produção dos ruídos.

 

 

O novo relatório,lido também em sessão pública no Corinthian Hall,gerou a formação de uma terceira comissão,ainda mais cética e implacável.Um dos integrantes do grupo anunciou:se atiraria das cataratas do Genesee se não conseguisse desvendar a farsa.

 

 

No dia seguinte,Maggie e Leah deixaram-se tocar,atar e manipular como antes e ainda se submeteram a outro exame.Um comitê complementar,formado apenas por mulheres,levou-as a um cômodo à parte,tirou seus vestidos e fez buscas,em seus “corpos e roupas”,à cata de objetos capazes de fazer ruídos,como bolas de chumbo.

 

 

Esta nova etapa da investigação terminou com as irmãs aos prantos.Mas ainda faltava um teste:era preciso saber se as batidas seriam provocadas por eletricidade ou pelos tais fluidos magnéticos.Maggie e Leah foram forçadas a ficar de pé sobre vidro e travesseiro,que não conduzem eletricidade,com um lenço amarrado à barra de seus vestidos,apertados nos tornozelos.

 

 

O resultado da experiência foi descrito,com poucas palavras,no certificado emitido pelo Comitê de Senhoras:”Todas ouvimos nitidamente as batidas na parede e no chão.”

 

 

Ao fim dos três dias de investigação,o veredito:”As pessoas em cuja presença os sons são ouvidos foram absolvidas da acusação de fraude.”

 

 

Ninguém conseguiu comprovar encenação nem explicar a origem das batidas.O investigador que prometera se lançar nas cataratas não tocou mais no assunto.

 

 

Várias outras apresentações e vários outros testes seriam realizados nos anos seguintes em torno das irmãs Fox.E Kate se uniria a Maggie e Leah em alguns dos espetáculos mais impressionantes e mais bem-remunerados dessa turnê.

 

 

Em 1857,ano do lançamento de O Livro dos Espíritos,Leah e Maggie Fox se submeteram a uma nova prova.A caçula,Kate,foi poupada de humilhações mais uma vez.

 

 

O novo inquérito foi patrocinado pelo jornal Boston Courrier.Estava em jogo uma recompensa de 500 dólares(por coincidência,o mesmo valor que teria sido roubado do massacre degolado em Hydesville).O prêmio seria entregue a qualquer médium capaz de provar a existência da comunicação com os espíritos a uma equipe de quatro renomados professores de Harvard,entre eles o matemático e astrônomo Benjamin Peirce e o biólogo e cientista natural Louis Agassiz.

 

 

Antes das irmãs Fox,duas outras celebridades do mundo dos espíritos entraram no circuito para concorrer ao prêmio:os irmãos Davenport,anunciados como os “médiuns do armário” em exibições sempre concorridas.A cada apresentação,em teatros sempre lotados,eles se permitiam amarrar dos pés à cabeça dentro de um “gabinete mediúnico”,um armário portátil de nogueira,com três portas,onde também eram trancafiados pandeiros,violões,violinos,rabeca,banjo e cornetas.

 

 

Os nós das cordas eram atados diante do público,a porta de madeira se fechava e,instantes depois,a melodia e o barulho dos instrumentos musicais embalavam e atordoavam a plateia.Para muitos,não havia dúvidas:a energia dos médiuns – a alma livre dos corpos – ou de outros espíritos musicais regeriam os concertos sobrenaturais.

 

 

Uma prova da presença de visitantes invisíveis seria o fato de as mãos dos irmãos,besuntadas de farinha de trigo antes da apresentação,continuarem assim,enfarinhadas,logo depois do “concerto do além”,sem que se encontrassem vestígios de pó branco sobre quaisquer dos instrumentos.

 

 

Chegara,então,o momento de a ciência pôr este mistério à prova,e o escalado para a missão de investigar a mediunidade dos candidatos foi Benjamin Peirce.

 

 

Quando os irmãos Davenport estavam bem-amarrados,ele invadiu,de surpresa,o “gabinete mediúnico” e agarrou,um por um,todos os instrumentos.Dez minutos se passaram e  nenhuma música foi ouvida dentro da cabine,para júbilo do cientista e constrangimento dos irmãos.

 

 

O desempenho das irmãs Fox,avaliado por Pierce e sua equipe em seguida,seria um pouco mais animador.Ruídos e pancadas esparsos tomaram conta da sala enquanto o grupo observava a dupla,que teve os pulsos e tornozelos atados de novo.

 

 

Mas nada muito empolgante – nem digno de premiação – a julgar pelo relatório final divulgado pela imprensa:

 

 

Umas batidinhas facilmente rastreáveis às suas pessoas e facilmente feitas por outros,sem a presença de espíritos;nenhuma mesa ou piano levitou,e nada se moveu sequer um milimetro.(…)E assim termina essa impostura ridícula e infame.

 

 

Ao fim de dois dias de investigações,o repórter do Boston Courrier anunciou o resultado do concurso:os 500 dólares continuariam no cofre do jornal.

 

 

 


 

 

 

*Texto extraído do Livro:”Kardec A Biografia”,de Marcel Souto Maior.

 

 

 


 

 

Complementos:

 

 

http://www.autoresespiritasclassicos.com/Historia/Irmas%20Fox/As%20Irm%C3%A3s%20Fox%20(Margaret,%20Kate%20e%20Leah).htm

 

 

https://www.youtube.com/watch?v=2pGAq9_owXA

 

 

http://www.verdadeluz.com.br/irmas-fox-filme-completo/

 

 

http://www.febnet.org.br/wp-content/uploads/2012/06/Irmas-Fox.pdf

 

 

https://pt.wikipedia.org/wiki/Irm%C3%A3s_Fox

 

 

http://www.oconsolador.com.br/linkfixo/biografias/irmasfox.html

 

 


 

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