Reencontrando a Mãe Querida

Minha mente oscilava entre o mundo material e o mundo espiritual.Voltei para o leito sentindo-me debilitado,mas minha mãe permaneceu ao meu lado até eu dormir.Antes,fechei os olhos e lembrei-me de um menino que cresceu magro entre as várzeas de uma terra maravilhosa,cheia de um verde encantador.Lembrei-me do dia em que minha mãe engomou minha camisa branca e me mandou para a escola.Sorri,vendo-me pequeno,menino danado.Quando estava sozinho,fazia e acontecia,sem me dar conta da idade que tinha,nem das calças curtas que usava.Quando me achava no meio da molecada,a timidez escondia o riso,mas o olhar maroto e desconfiado era minha marca registrada.

A professora era daquelas que conhecia o bê-a-bá da meninada.Quando olhou para mim,metido em mangas de camisa engomada e sapatos de bicos finos,logo desconfiou que por trás de tantos cuidados havia um aluno aplicado,dono de bela caligrafia e pontuação afiada.Retratou bem meu rosto.

Quando cheguei em casa,minha mãe já estava de pé,no portão ,esperando-me com o coração da mãe que cumprira seu dever e agora esperava o primeiro resultado.Sorri empolgado e ela abraçou-me com gratidão.O resto do dia resumiu-se em tarefa cuidadosamente cumprida e espera.Fiz a lição com esmero e até achei muito fácil.Repeti as vogais dez vezes!Claro estava para mim que não havia necessidade de se repetir cinco letrinhas dez vezes,um número muito cansativo.

Minha mãe me observava adivinhando meus pensamentos.A resposta não tardou.Debochado,perguntei-lhe se conhecia minha professora.Ela me respondeu que fora sua aluna juntamente com seus irmãos.concluí que a professora estava velha demais.

 

Resplandecia o sol entre os vales e eu também resplandecia aguardando o dia seguinte em que iria para a escola e aprenderia mais um pouco das coisas de gente sabida que escrevia os livros,que dizia das pedras e do céu,do mar e das estrelas,que dizia de tudo sem precisar abrir a boca.Assim,a noite chegou com uma resposta para aquele dia proveitoso:

Sonhei que era homem feito e escrevia sobre as folhas das árvores para dizer da sua beleza,da sua poesia.Sabia que havia poesia até no canto do galo.Sabia que havia poesia no coaxar dos sapos e,poesia havia mais ainda,nos olhos serenos daquela menina de tranças enfeitadas com laços de fitas cor-de-rosa.Aquela menina que se sentara ao meu lado,na sala de aula.

Sonhei que escrevia para os primos,escrevia para os avós e escrevia para o homem que mandava no Brasil.Para esse homem pensei em pedir uma professora mais nova,porém fui esperto:esse assunto era pequeno demais para ele resolver.A professora deveria ser assunto do meu pai ou do prefeito,que eu também não sabia quem era.Escrevi a noite toda,por isso acordei cansado e preocupado coma escola.

Minha mãe não confiava na minha responsabilidade de estudante.Fez o café preocupada.Correu até meu quarto e viu a cama arrumada.Eu já estava pronto,todo engomado:sapatos brilhando,cabelos penteados,olhar firme e um tanto desconfiado.Pensava na professora,na lição que ela iria passar.Não poderia lhe faltar com o respeito,reclamando da lição repetitiva,ficaria calado.

Saí assoviando de contentamento.Era o segundo dia de aula.Ao chegar na escola,observei as tranças da menina e senti vontade de escrever toda poesia que elas carregavam.Novamente,observei os laços de fita,os olhos serenos daquela menina…

Ninguém reclamou da lição repetitiva.Ora,se ninguém havia reclamado,por que eu haveria de ser o único a estranhar a lição?Com o tempo,compreendi que as criaturas humanas são assim mesmo:repetem tudo para poder aprender um pouco.Naquele tempo de menino,para mim,bastava repetir duas vezes,era suficiente.

 

A adolescência passou ligeiro,porque fiquei escrevendo para a menina de tranças com laços de fita cor-de-rosa.Quando percebi,já era homem feito com um baú de cartas que jamais foram enviadas.E foi dessas cartas que nasceu o canto de um menino que se fez poeta:

 

Estamos em pleno verão

e meu coração não aquece meu peito.

Dói de tanto frio…Dói a minha alma presa,

presa em dois laços de fitas cor-de-rosa.

Estamos em pleno verão.

O sol esquenta a Terra

e a Terra aquece os lares

fartos de frutas,refrescos e tardes maravilhosas.

Meu coração está frio

e mais fria a minha alma,presa,

escrava de uma rosa que cresceu aos meus olhos.

Não sei onde o vento a deixou,

nem sei onde os seus cabelos deixaram os laços de fita.

Estamos em pleno verão…

 

Este poema foi escrito por mim no momento em que conheci a poesia e compreendi que era poeta,desde o primeiro dia de aula e não sabia.

Abri os olhos lentamente e vi minha mãe sorrindo.Tive certeza de que dividira com ela aquele momento de recordações preciosas e belas.

Dormi e acordei sem querer acordar.Como foi difícil aceitar o fato de não poder voltar à Terra para viver as tardes ao lado de uma mulher que amei mais do que a mim mesmo,se é que isso é possível de se compreender.

Minha mãe fez uma espécie de terapia comigo.Passou a contar-me os fatos sucedidos antes e depois do meu desencarne.

Psicologicamente,eu ainda estava abalado.Ouvi,muitas vezes,os médicos falando que eu havia desencarnado há muito tempo,mas meus valores morais não me deixavam acreditar em uma nova existência.Tudo isso foi por mim captado pela intuição.

Encontrei,no sono,uma fuga.A possibilidade de uma vida nova assustava-me.

A presença de minha mãe me dava a certeza de que eu não estava desamparado,mas ao mesmo tempo,acentuava minha condição de defunto doente.Recusava qualquer proposta para integrar-me ao meio social que me esperava com novidades.Mesmo sabendo que estava vivendo apenas com o corpo espiritual,não tinha interesse em saber como isso era possível.

 

 

Deprimido,continuei com o tratamento psicológico.Sentia vontade de morrer novamente para não testemunhar minha falta de fé e de coragem.Sei que fui covarde,mas isso já não é novidade para o leitor e não será para ninguém.

Respeitava os profissionais que me atendiam com presteza.Dirigiam-se a mim com ares de piedade,apesar de tentarem disfarçar.Eu sabia que vivia no mundo espiritual,mas não me lembrava da existência terrena.Hoje,sei que a regressão a que me submeteram foi para que eu me centrasse apenas na essência do meu ser,com o propósito de refazer minha história.

Minha mãe sabia que eu não tinha condições de sustentar uma conversa por mais monossilábica que fosse.

Recebi tratamento adequado,depois veio a alta médica.Despedi-me de minha mãe para integrar-me a uma nova vida.Ela me abraçou sorrindo e disse-me que,quando fosse possível,visitar-me-ia.

Não posso passar a limpo tudo que ocorreu comigo,durante o tratamento psicológico,mas tenho lembrança do tempo em que passei no plano espiritual,compatível com os sentimentos de um ser que ainda se imaginava encarnado.Não percebi nenhum sinal de sofrimento.O que pude presenciar foi uma vida bucólica,um local com muitas árvores e pessoas andando.vagarosamente.Muitos se dirigiam a mim com o propósito de me ajudar,mas eu não falava nem sorria.Passado também não me ocorria.Meu quadro psíquico era doentio.

Depois que deixei o hospital,onde recebi o tratamento psicológico,fui levado para uma cidade.Os habitantes eram iguais a mim:estávamos ali para começar uma nova vida e carecíamos de atenção.Fazíamos tudo o que se pode considerar hábitos comuns:tomávamos banhos,trocávamos de roupas que nos eram fornecidas,enfim,aprendíamos a conviver em uma comunidade espiritual.Tomei muitas sopas com sabores diversos,mas não eram iguais às sopas preparadas na Terra.O estômago doía de fome,mesmo após tomar a sopa rala,mas o café me reanimava.Como eu gostava do café…

Tive a impressão de ter ressuscitado.Minha mente florescia como um canteiro de rosas,graças ao apoio de alguns amigos que conversavam comigo.Conversavam não é bem o termo,falavam com esperança de arrancar de mim duas ou três palavras.Eu não queria conversar,sabia o quanto estava destruído,apesar do tratamento psicológico que recebera.

 

Precisava aceitar a vida nova que me recebia de braços abertos.A vida era nova,mas o meu corpo era o mesmo,os hábitos eram os mesmos.Usava os mesmos óculos.Apanhava-os em cima da mesinha da cabeceira da cama quando abria os olhos.A única coisa que havia mudado eram as minhas vestes.Usava um camisolão azul,suave,que me dava uma sensação de conforto e leveza espiritual.

Depois de algum tempo,revi minha vida terrena,com a ajuda de uma professora espetacular que ma fazia recordar quem eu era para integrar-me à sociedade,naturalmente.

Ela decorou muitos poemas meus para me agradar,para me conquistar e depois me ensinar que,mesmo sendo poeta,eu não sabia muito do amor e da vida,porque não compreendia a morte.

O nome desa amiga é Natália,voltei à minha forma física,sem carne e sem ossos.Física sem corpo doente para cuidar.Vi minha imagem em seus olhos e aprendi a crer na morte como forma de vida.

Não há criança mais pura do que a que habita nos olhos de Natália.Não há rosa mais perfumada do que a que brotou no meu peito.Não há outra Natália que me faça conjugar ,de forma primorosa,o verbo “morrer”.Devo a ela tudo o que restou do sonhador que conseguiu ver as estrelas de perto.Outro amor assim,puro,igual ao dela,sei que não mereço conhecer.

Se um dia eu partir para outros campos,levarei a semente dela como uma espada,que não fere,mas propaga um canto maravilhoso.Sem os seus ensinamentos eu seria apenas defunto.

Com ela,não precisei de muito tempo para chegar a mim mesmo.Comecei a articular histórias,poemas e crônicas.Nesta fase,o discernimento foi fundamental.Sentia saudade dos amigos,dos familiares e não podia visitá-los.

Natália me ensinou que o sonho é uma maneira eficaz de entrarmos em contato com nossos amigos da Terra.Ela me disse que eu daria conta da tarefa com muita facilidade,uma vez que tudo era muito simples.

 

Horas depois vi que um dos meus amigos encarnados,em espírito,entrava no quarto onde eu estava.tinha sobre a cabeça um capuz.Perguntei a Natália porque não o deixavam à vontade.Ela respondeu que o capuz era necessário para que meu amigo,ao acordar,tivesse apenas a sensação de um sonho.

Conversamos demoradamente,mas ele não me viu.Abracei-o e disse-lhe que estava bem.Ele se comportava como uma criança bem educada:sabia que não estava me vendo,mas não reclamava  por isso.Sentia que não estava me vendo,mas não reclamava por isso.Sentia-se feliz por conversarmos animadamente.

No momento certo foi recolhido.Natália abraçou-me demonstrando regozijo.garantiu-me que ele contaria o sonho para os amigos e familiares,porém não poderia lembrar-se exatamente como tudo acontecera,em virtude do capuz impor limite entre os dois mundos.

É comum alguém sonhar com um ente querido e dizer:”Conversamos muito,sei que está bem,mas não me lembro de ter visto o rosto dele.”Muitas vezes,contudo,o rosto do espírito desencarnado pode ser visto.Todavia,o ambiente onde ele está nem sempre é revelado para evitar sofrimento por parte dos amigos e familiares encarnados.

 

Quando o espírito desencarnado já se encontra em patamar adiantado e se comunica com os familiares por meio de sonhos,tendo o consentimento do plano espiritual,tudo pode ser revelado,mas o que fica no espírito do visitante encarnado é um bem-estar,transmitido por intermédio das vibrações que o espírito desencarnado passou.

Vale lembrar que nem sempre os sonhos devem ser atendidos apenas sob o ponto de vista espiritual.há as alterações naturais,provocadas pela  própria mente que,interagindo fora da matéria,assimila uma sensação diferente,mas ao voltar para o corpo material,o espírito se reveste de condições inerentes à matéria que lhe dá uma propriedade diferenciada daquela sentida no mundo espiritual.

O importante de tudo isso são as sensações impressas por nós mesmos fora da matéria.Se o nosso ente querido nos recebeu bem e nos transmitiu seu amor por meio de um abraço,ao acordar,de algumas forma,traremos esse abraço para nossa realidade e nos sentiremos mais tranquilos e menos saudosos.Tudo isso é promovido graças à misericórdia divina que sempre nos concede a graça de entrarmos em contato com os nossos irmãos encarnados.

 


 

 

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[_Texto extraído do livro:”O Teatro da Vida,Um campo Novo”,de Ozeni Lima,pelo Espírito Mauro]

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