Obra de Satã

Ano de 1868:onze longos e turbulentos anos já se tinham passado desde o lançamento de O Livro dos Espíritos,em 1857,mas o abade Poussin,professor no seminário de Nice,ainda definia a doutrina como “obra de satã” em livro recém-publicado:O espiritismo ante a história da Igreja – sua origem,sua natureza,sua certeza,seus perigos.

Kardec leu e fichou a obra,e se surpreendeu ao ver o pároco reconhecer o poder da doutrina satânica:

O espiritismo,é preciso reconhecê-lo,envolve como numa imensa teia,e por seus profetas,por seus oráculos,por seus livros e por seu jornalismo,esforça-se por minar surdamente a Igreja Católica.

Outra afirmação surpreendente atribuía ao espiritismo uma espécie de parceria com a Igreja Católica na guerra contra a descrença:

“Se o espiritismo nos prestou o serviço de derrubar as teorias materialistas do século XVIII,dá-nos em troca uma revelação nova,que ameaça pela base todo o edifício da revelação cristã.”

O padre demonstrava preocupação com a “força da ignorância e da fascinação que excita a curiosidade”,e levava os católicos a “brincar diariamente com o espiritismo,sem se preocupar em nada com os seus perigos!”.

Era preciso,sim,tomar cuidado e manter distância das manifestações diabólicas provocadas por atos desatinados como o de “interrogar mesas”.

Kardec reagiu ao livro com um artigo publicado na edição de março da Revista Espírita,em que aconselhava o pároco e seus leitores e lembrar as palavras do monsenhor Frayssinous nas suas conferências sobre religião:

“Um demônio que procurasse destruir o reino do vício para estabelecer o da virtude seria um demônio esquisito,porque se destruiria a si próprio.” 

Quem,depois da morte de Kardec,estaria a postos para responder a ataque como este e para pedir paz e bom senso aos adversários?

Em 1868,Kardec começou a tirar da gaveta e a tornar públicas algumas mensagens até então confidenciais,assinadas por “reveladores” célebres,através de diversos médiuns da Sociedade de Paris e de outras associações espíritas.

Em texto psicografados em 1861,São José anunciava a chegada de um novo messias à Terra e celebrava o espiritismo:

– Já vos foi dito que um dia todas as religiões confundir-se-ão numa mesma crença.Glória ao espiritismo que o precede(a chegada do messias)e que vem esclarecer todas as coisas!

O escritor católico François Fénelon – cuja obra-prima,Telêmaco,o professor Rivail vertera para o alemão – também se manifestara,no mesmo ano,para abrir os olhos de Kardec e seus adeptos:

– A corrupção no seio das religiões é o sintoma de sua decadência(…)porque ela é o índice de uma falta de fé verdadeira.

Erasto pedira a palavra para proclamar,mais uma vez,a importância da solidariedade:

“Nela se encontra essa máxima sublime:’Um por todos e todos por um.’Eis,meus filhos,a verdadeira lei do espiritismo,a verdadeira conquista de futuro próximo.Marcha!”

Os espíritas marcharam nos últimos anos,céticos e católicos se converteram à nova religião,mas os ataques da Igreja persistiam e situações constrangedoras – de seis ou sete anos – voltavam a acontecer,para indignação de Kardec.

Num vilarejo vizinho de Lyon,o pároco da cidade bateu à porta de uma ovelha desgarrada ao descobrir que ela andava ocupada com a leitura de O Livro dos Espíritos.Aos berros,como se discursasse num púlpito para a multidão de fiéis,ameaçou a velha senhora de não enterrá-la quando sua hora chegasse e exigiu a entrega do livro satânico.

Depois de se recuperar do susto,a leitora bateria à porta do pároco para pedir o livro de volta.O exemplar lhe pertencia – argumentou – e seria difícil e injusto ter de comprar outro.Contrariado,o padre devolveu o volume à dona.Ou melhor,o que restava dele,agora repleto de rasuras,anotações furibundas e refutações de todo o tipo.

Ao lado do nome de cada espírito “santo” identificado como fonte das revelações,o padre escreveu um insulto:mentiroso,demônio,estúpido,

herege.

A própria senhora narraria o drama a Kardec,através de carta,e se proclamaria mais espírita do que nunca depois de ouvir tantos impropérios:”Perdoai-lhe,Senhor,porque ele não sabe o que fez.De que lado estava o verdadeiro cristianismo?”

Kardec então se lembrou do pároco que,anos antes,convocara a população a entregar todas as obras espíritas que tinha em casa para que,juntos,numa bela celebração cristã,alimentassem uma imensa fogueira na praça pública.Ficou sem combustível para o fogo.

[- Texto extraído do Livro:”Kardec A Biografia”,de Marcel Souto Maior.]

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