Alma Do Amor(Cruz e Sousa)

     Alma do Amor,cansada,erma e fremente,

     Arrastando o grilhão das próprias dores,

     Sustenta a luz da fé por onde fores,

     Torturada,ferida,descontente…

      Nebulosas,estrelas,mundos,flores

      Rasgam,vibrando,excelso trilho à frente…

      Tudo sonha,buscando o lume ardente

      Do eterno amor de todos os amores!

     Alma,de pés sangrando senda afora,

10 Humilha-te,padece,chora,chora,

     Mas bendize o teu santo cativeiro…

     Não esperes ninguém para ajudar-te,

     Ama apenas,que Deus,em toda a parte,

     E’ o sol do amor para o Universo inteiro.

                                  2

                                         Corpo

   Carne!Vaso de dor,sinistro e belo,

   Estruturação em grânulos de escória,

   Relicário de lama transitória,

   Tugúrio estreito e fúlgido castelo!

    Assinala,em lúgubre duelo,

    O bem e o mal na cinza merencória;

     Mas elevas o lodo para a glória,

     Da sombra à luz,em trágico flagelo.

      Louvor à encarnação que te sustenta,

      Lâmpada de amargura ansiosa e lenta,

     Ergástulo do amor puro e profundo!…

     És a humana e arcangélica fornalha,

     Templo e gleba onde Deus sonha e trabalha

28 Santificando as lágrimas do mundo!…

                                   3

                                    Sob a Noite

      Alma triste,cansada,insatisfeita,

      Dentro da noite espessa que te alcança,

      Ergue o facho sublime da esperança

      Ante os golpes da treva que te espreita.

      Entre pedras e lágrimas avança,

      Na sarça que domina a senda estreita,

      E sonha a luz da Imensidade Eleita,

     Aprisionada à extrema insegurança.

37 Segue,arrostando em glória,por sofrê-los,

      Turbilhões,agonias,pesadelos,

      Nos assombros de longa tempestades…

      E,além da pavorosa travessia,

      Encontrarás,chorando de alegria,

      O amanhecer da Grande Liberdade!

                            4

                               Escalada

    Louva o suplício da matéria escrava,

    Na turbilhão de cárceres e algemas.

    E canta,coração,inda que espremas

    O fel da própria dor em pranto e lava.

    Chora e avança cansado,mas não temas;

    Sangrem-te embora os pés na urtiga brava,

     Caminha imune ao lodo que deprava,

     Purificado em lágrimas supremas.

51 Indiferença às cóleras e às fúrias,

     Apaga o fogo das paixões espúrias,

     Sofre humilde e sereno por vencê-las…

     Peregrino de trágico deserto,

     Um dia,subirás,enfim liberto,

     Gema solar em túnica de estrelas!…

                        4-A

                        Além Do Azul

    Além,além do humano sorvedouro,

    Cornucópia mirífica desata

    Orbes luzindo em flórida cascata,

    Onde a vida cinzela o céu vindouro…

    Constelações e sóis…Ancoradouro

    Da excelsa luz dos séculos sem data…

    Almos ninhos em pétalas de prata,

    Coroados de acanto,mirto e louro…

     Por cerúleas alfombras estelares,

     Flâmeos jardins e edênicos solares,

     O coração do amor pulsa disperso…

      Entre esferas de cálidos fulgores,

      Domicílios das almas superiores,

70 Freme a glória divina do Universo.

_________________________

(*)Filho de pais escravos,Cruz e Sousa é a figura mais expressiva do Simbolismo no Brasil e,ao lado de Mallarmé e Stefan George,um dos grandes nomes do movimento simbolista no mundo,segundo Roger Bastide.<> – escreveu seu grande amigo Virgílio Várzea(apud A. Muricy,Pan. Mov. Simb. Bras.,I,pág.98) – <>Tendo sofrido acerbas provocações,naturalmente dentro das dívidas cármicas,o grande poeta continua,hoje,em afanosa luta pela difusão das <>,entre as quais agora concluiu o Espírito no túmulo.Principalmente no setor esperantista,o artista de Faróis é uma personalidade atuante na Espiritualidade.Em 1961,ano em que se comemorou,em todo o Brasil,o primeiro centenário de seu nascimento,os mais representativos centros culturais do País lhe tributaram mil e uma homenagens,culminando com a publicação de suas Obras Completas,organizadas por Andrade Muricy,em primorosa apresentação,pela Editora José Aguilar Ltda.A extraordinária produção do genial poeta provocou,dos que o rodeavam,os epítetos de <>,<>,<>,epítetos – diz A.Muricy(op.cit.,pág.101)<>.(Desterro,hoje Florianópolis,SC,24 de Novembro de 1861 – Sítio,atual Antônio Carlos Gerais,19 de Março de 1898.)

         BIBLIOGRAFIA:Broquéis;Evocações;Faróis;Últimos Sonetos;etc.

______

10.Ricochete:”…chora,chora”.Aliás,a repetição enfática de chorar sugere um pranto capaz de desabafar a alma,suscetível,no entanto,de insuflar ideias novas para se possa bendizer o “santo cativeiro” das provocações terrenas…

28.Se dispuséssemos de bastante espaço,transcreveríamos numerosos sonetos do grande simbolista para que pudéssemos observar a semelhança de estilo,não apenas no que tange ao esquema rimático preferido pelo poeta,desde Broquéis aos Últimos Sonetos,mas,também,pela temática e pela presença das palavras-chaves do vate.Assim,de escantilhão,vamo-nos limitar a rápidas considerações e citações ligeiras.Ninguém ignora Cruz e Sousa,em  quase todos os seus inimitáveis sonetos,se referia a pelo menos uma parte do corpo humano,exaltando-a,quase sempre.Cf.,por exemplo,”Antífona”,”Em Sonhos…”,”Braços”,”Encarnação”,”Tulipa Real”,”Serpente de Cabelos” e tantos outros poemas de Broquéis.Em Faróis,bastaria que citássemos a série de sete sonetos – o primeiro “Cabelos” e o último – o VII – “Corpo” que,ainda ostenta o adjetivo “arcangélica”,tão familiar ao poeta.A Propósito,cf.o 9° verso de “Satã” e o 14° de “Livre!”.Aliás,neste último soneto,encontramos algumas rimas de que se serviu o simbolista no “Escalada”.As demais “suprema” e “algema”,encontramos nos dois quartetos de “O Assinalado”.

37.por sofrê-los. cf. a nota 3-4,pág. 110.

51.Com relação a “fúrias”,por simples curiosidade,cf. o 5° verso de “Afra”,o 11° de “Dança do Ventre” e,finalmente,em “Demônios”,o oitavo verso:

“Só fúria,fúria,fúria,fúria,fúria!”

70.Atentemos nas palavras de M.Cavalcanti Proença,em seu já citado livro(Ritmo e Poesia,pág.81):”Em Cruz e Souza,no poema ‘Antífona’,em 12 versos entre 44(25%)se observa a mesma acentuação;note-se,entretanto,que,nos primeiros vinte versos,há nove cuja tônica em 6° coincide com a de um proparoxítono”.Do 70 decassílabos participantes desta Antologia,encontramos um total de 18 vocábulos proparoxítonos de acentuação na 6°(25,7%),número,como se vê,bastante expressivo.

[______Textos Extraídos do Livro:”Antologia dos Imortais“,Francisco Cãndido Xavier/Waldo Vieira.]

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